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Contabilidade pública – uma área em desenvolvimento, com potencial de crescimento
20 March 2026
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V CICP juntou cerca de duas centenas de congressistas, em Mirandela


O segundo dia do V Congresso Internacional de Contabilidade Pública (CICP) arrancou às 9 da manhã com a última ronda de sessões paralelas. Congressistas de diversas proveniências nacionais e internacionais apresentaram novas tendências e casos concretos relacionados com a contabilidade pública. Feita a pausa para café, regresso ao auditório da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo do Instituto Politécnico de Bragança (EsACT-IPB), em Mirandela, para mais sessões plenárias. A presidente da comissão científica, Sónia Nogueira, fez as honras da casa para apresentar a intervenção do keynote speaker, Thomas Mueller-Marqués Berger. O presidente do International Public Sector Accounting Standards (IPSASB), organização que lidera desde 1 de janeiro, em substituição do britânico Ian Carruthers, trouxe até Mirandela a abordagem das necessidades do setor público enquanto se busca o alinhamento com as IFRS. O modelo e a estrutura de governação, o enquadramento concetual, os relatórios financeiros e o trabalho com as normas internacionais, foram alguns dos tópicos mencionados pelo especialista germânico, que também apresentou o programa e a estratégia de trabalho até 2028. Mueller-Marqués Berger referiu ainda a necessidade de existirem «políticas contabilísticas unificadas para a consolidação.» O presidente do IPSASB não terminaria sem deixar uma palavra de elogio à OCC por ser «um dos maiores apoiantes das organizações internacionais de contabilidade.»

Melhorar a responsabilização da informação financeira

A primeira sessão plenária foi moderada por Carlos Menezes, um dos principais impulsionadores deste congresso. O vice-presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, defendeu que as IPSAS, ou normas de contabilidade pública, «ajudam a melhorar a responsabilização da informação financeira, tanto a nível nacional como internacional.» Impossibilitada de intervir na véspera, como previsto, devido a um constrangimento nos voos, Ellen Haustein trouxe até Mirandela o tema dos orçamentos participativos, a perspetiva de género e as plataformas digitais. A investigadora da Universidade de Rostock, na Alemanha, referiu que «os orçamentos participativos, que resultam das sugestões e propostas dos cidadãos», tiveram recentemente o impulso da União Europeia. «A estratégia e orientação de Bruxelas passa por envolver a dimensão social nos orçamentos públicos», disse a docente germânica. No âmbito das plataformas digitais e da utilização da Inteligência Artificial, Haustein declarou que estes desenvolvimentos tecnológicos permitem um «maior envolvimento dos cidadãos», tendo em vista a idealização de políticas públicas, assentes em pontos em comum sobre questões complexas. No reverso da medalha, a investigadora germânica partilhou, como cautelas a ter na participação nestes processos, a questão da proteção de dados.

Tiago Joanaz de Melo falou sobre a contabilidade pública e as suas ligações com a responsabilidade financeira. «É muito difícil ser contabilista na administração pública, há demasiadas coisas a aprender e, no fundo, demasiada responsabilidade, por isso precisamos de excelentes e bem formados profissionais em contabilidade pública», argumentou o responsável da Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública (ESPAP). Joanaz de Melo, que também pertence à Comissão de Normalização Contabilística, prosseguiu, afirmando que «tenho 35 anos de carreira nesta área e cada vez tenho mais dúvidas. Há dezenas ou centenas de diplomas, despachos, notas, FAQ, que não tem fim. Os contabilistas certificados não conseguem aprender tudo e têm de estar preparados. Para além disso, o Tribunal de Contas (TC) tem aplicado multas umas atrás das outras.»

Também impedido de chegar ao continente devido às limitações aéreas, o diretor regional de Orçamento e Tesouro da Região Autónoma dos Açores (RAM), que entrou no congresso à distância, corroborou as afirmações do orador anterior: «existe muita legislação e temos o cutelo do TC sobre nós», referiu José António Gomes. O dirigente recuou até ao dia 11 de setembro de 2015, data em que entrou em vigor a aplicação do SNC-AP a nível nacional e na RAA. «A crise das dívidas soberanas trouxe uma verdade incontornável: Os Estados só ficam protegidos com a melhoria da qualidade do reporte financeiro, dotados de sistemas contabilísticos comparáveis e robustos. Por isso, a accountability tornou-se uma obrigação ética e política. Só com informação transparente teremos políticas públicas sólidas. Uma empresa falha e desaparece, um Estado falha e belisca os compromissos e obrigações sociais assumidas», sustentou o diretor regional açoriano.

José António Gomes acrescentou que «o Estado dever dar o exemplo em nome da confiança para a democracia.»  Com o título da sessão a ser subordinado à questão «contabilidade pública e contabilidade empresarial: convergência técnica ou divergência necessária?», o dirigente concordou com a «aproximação entre ambas», mas rejeitou a «fusão». E explicou porquê: «um gera valor social e o outro valor económico.»

O reconhecimento do contabilista público

Na parte dedicada às perguntas e respostas dos intervenientes, a bastonária Paula franco solicitou o uso da palavra. «A contabilidade pública é muito complexa, muito vasta e exige um grande rigor normativo. Precisamos de profissionais capacitados e com conhecimentos para aplicar o normativo público. O reconhecimento do estatuto do contabilista público seria um momento de grande mudança e conduziria à transformação de processos na administração pública. O compromisso de responsabilidade do contabilista certificado será determinante para o futuro.»
A sessão de encerramento que se seguiu foi, como não poderia deixar de ser, um espaço para agradecimentos e reflexões. Paula Franco enalteceu a simpatia e a excelência do acolhimento na escola do IPB, «no interior profundo mais distante da capital, na lindíssima cidade de Mirandela», que mobilizou para esta região do país cerca de duas centenas de profissionais e académicos, do país e do estrangeiro, gerando um forte dinamismo. Como se de uma cerimónia de encerramento de Jogos Olímpicos se tratasse, a bastonária anunciou que em 2028 o VI CICP será no Porto, nas instalações do ISCAP.
Por seu turno, Sónia Nogueira, presidente da comissão científica, salientou a «relevância e atualidade do tema» e o facto de ter sido atingido um dos principais objetivos: «desafiar os congressistas a pensar criticamente.» A diretora da EsACT-IPB definiu a contabilidade pública como um instrumento técnico e um mecanismo de transparência e accountability, «sendo um campo de investigação em desenvolvimento e com potencial de crescimento.» Na condição de anfitrião, coube ao vice-presidente do IPB as derradeiras palavras. Albano Alves sublinhou o «trabalho de proximidade feito pela OCC junto das universidades e dos politécnicos, e da incorporação destes ensinamentos e reflexões nas práticas profissionais do dia a dia.» O dirigente rematou a sua intervenção afirmando que «a formação é condição essencial para termos profissionais capazes para fazer o reporte financeiro.»


Atribuição dos prémios «AMR»

A parte final do segundo do dia do evento foi aproveitada para a entrega dos prémios «Accounting and Management Review» (AMR) - a revista científica da Ordem dos Contabilistas Certificados. Dos 90 trabalhos submetidos foram aceites e apresentados nas sessões paralelas 78 o que para, Sónia Nogueira, presidente da comissão científica, revela a «vitalidade e dinamismo da comunidade científica.»

Aquando da entrega dos prémios, Paula Franco louvou a qualidade dos trabalhos apresentados, que serão todos publicados na «AMR». «A Ordem vai honrar o compromisso de fazer desta uma referência (e uma das melhores) publicações da especialidade a nível internacional, contribuindo para aproximar a academia e a profissão», asseverou.

Assim, o prémio para melhor artigo foi atribuído a «Factors Influencing the Usefulness of Financial Reporting Information In Portuguese Local Governments», de Susana Margarida Faustino Jorge, Joana Filipa Vaz Caetano e Sónia Paula Silva Nogueira. Os restantes prémios, ex-aequo, foram atribuídos a: «An Exploratory Framework for Measuring the Levels of Adoption of ESG Principles: The Case Of Portuguese Investment Funds», de Ricardo de Moraes e Soares, Clara Gariso, Ana Catarina Kaizeler e Mariana Arcanjo; «The Effect of Governance Structures on Prudent Financial Reporting of Portuguese Hospitals», de Cláudia Pereira, Armindo Lima, Luís Gomes e Rui Bertuzi; «Fiscal Distress e Recuperação Municipal em Portugal: Uma Análise Multidimensional dos Municípios Aderentes ao FAM (2016 - 2024)», de Rita Almeida Silva e Miguel Almeida; «A Mensuração da Sustentabilidade na Contabilidade Pública: Aplicação da NCP 27 do SNC-AP ao Reconhecimento de Ativos e Passivos Ambientais», de Ricardo Pinheiro, Carlos Menezes e Carlos Lobo.


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