Reforçar a transparência, combater a burocracia excessiva e aumentar a confiança dos cidadãos na União Europeia são prioridades da sua atuação. Qual destes pilares considera mais prioritário?
É difícil priorizar. Estão, de facto, todos interligados. Não pode haver confiança sem transparência e a burocracia excessiva leva à opacidade. Mas se tivesse de escolher uma das prioridades escolheria, definitivamente, a transparência, por ser a porta de entrada para que tudo seja auditável, identificando o excesso de burocracia, e para que se possa enveredar por um caminho transparente que combata as entropias democráticas.
A provedoria é um órgão independente, mas apenas emite recomendações, não tem poder vinculativo. Considera tratar-se de uma limitação à sua atuação?
Essa é uma pergunta recorrente. Para que fique claro, a natureza da Provedoria de Justiça Europeia decorre do facto de esta instituição ser um instrumento de soft law e não de hard law. O facto de as nossas decisões não serem vinculativas permite-nos ir além da legalidade, e olhar para algo tão importante como a justiça, seja ao nível dos procedimentos como do próprio enquadramento legal. Reconheça-se que a realidade é muito mais inimaginável do que os próprios decisores conseguem abarcar. Nem tudo o que é lei é justo, e nem tudo aquilo que é justo é lei. Quando as queixas nos chegam olhamos, obviamente, para a lei, mas olhamos para a justiça daquilo que é o problema do cidadão. O objetivo é sempre o mesmo: com independência, imparcialidade e argumentos fortes garantir que as instituições respondem às nossas recomendações, reforçando o elo de confiança entre o cidadão e as instituições europeias. Esta “ponte” entre o cidadão e as instituições é difícil de reconhecer e de garantir a sua solidez, por isso, o papel da provedoria passa por defender ambos os protagonistas, em nome de uma boa administração europeia.
Para além de deputada e vice-provedora de justiça em Portugal, foi membro do comité de supervisão do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF), que investiga casos de fraude que lesam o orçamento da UE, corrupção e faltas graves nas instituições europeias. De que forma a experiência acumulada na luta antifraude confere robustez à sua missão?
Este comité tinha por missão garantir a independência e imparcialidade do OLAF no exercício do seu mandato que é, prioritariamente, o da proteção dos interesses financeiros da UE e, obviamente, o acompanhamento de casos relacionados com os deveres funcionais de altos cargos. Dito isto, nunca tive um papel de investigadora, mas sim de guardiã do processo, nomeadamente zelava pelo respeito dos direitos dos cidadãos. O que, diga-se em abono da verdade, é uma função muito próxima daquela que exerço atualmente. Em Portugal, como mencionou, desempenhei cargos em que lidei de perto com questões relacionadas com a fraude e a corrupção. A existência de transparência efetiva, eficaz e de mecanismos de monitorização é algo que é particularmente importante para garantir que não temos situações de fraude ou corrupção.
Quando tomou posse, assumiu que a ansiada desburocratização da UE devia ser acompanhada por mecanismos de controlo eficazes. Este processo está a correr da forma que planeou, de modo a evitar fenómenos de corrupção?
Mantenho o que disse nessa intervenção. Hoje em dia, os cidadãos não querem desculpas, querem soluções e, para tal, é fundamental garantir a agilidade das instituições. Tive em mãos uma grande queixa no âmbito do processo de simplificação. Na minha perspetiva, simplificar não é atalhar. Ou seja, qualquer processo de simplificação que conduza a uma maior agilidade das instituições deve, simultaneamente, respeitar as garantias processuais importantes, nomeadamente as avaliações de impacto e os processos de consulta pública.
Quer dizer que não se pode simplificar a qualquer preço?
A Provedoria Europeia não entra em política e não faz política, centra-se nos procedimentos. E são várias as queixas que existem no âmbito dos pacotes Omnibus, que abarcam a sustentabilidade, a Política Agrícola Comum (PAC) e o tráfico de imigrantes. Nesse sentido, já emitimos conclusões conjuntas para estes três inquéritos que apontam para a urgência de acelerar os respetivos processos legislativos. Vivemos um período de ansiedade e adaptação por parte das instituições. Mas é preciso tomar as decisões de forma correta para que o objetivo de aumentar a competitividade das empresas, por via da simplificação, produza frutos. Assim que tomei posse, oito ONG apresentaram uma queixa relativa a este processo de simplificação, em particular no âmbito da sustentabilidade, que foi considerada uma prioridade para a Comissão Europeia na sequência do relatório Draghi. Para além das queixas das ONG já mencionadas, também recebemos queixas de empresas, que já se encontravam a preparar uma série de alterações regulatórias que tinham sido pensadas e negociadas longamente. No caso da sustentabilidade durante mais de dois anos, certamente.
A Tax Omnibus, que deverá ser apresentada pela Comissão Europeia até final do mês de junho, trata-se de um pacote de simplificação que pretende aliviar a carga administrativa, entre 25 e 35 por cento, nas empresas, de micro, pequena, média e grande dimensão. Tem recebido queixas de empresários, associações e profissionais sobre custos desproporcionados, nomeadamente a nível administrativo e burocrático?
Não tenho queixas sobre esse pacote em concreto. Mas deixe-me ressalvar um aspeto para concluir a resposta anterior: emiti recomendações relacionadas com os pacotes da sustentabilidade e aquilo que recebi foi uma resposta construtiva da Comissão Europeia que reconheceu que tinha de fazer mais em matéria de transparência, no âmbito de uma dimensão participativa e deliberativa do processo decisório europeu, de modo a que exista previsibilidade, uma garantia particularmente importante num contexto de competição.
Espera que este pacote sirva de exemplo para futuras iniciativas?
O que espero dos próximos pacotes é que possam ser consentâneos com o compromisso que a Comissão assumiu junto da provedoria, ao nível das chamadas diretrizes para melhorar a regulamentação. O processo de decisão política é dos políticos, mas os procedimentos existem para salvaguardar direitos muito importantes, as expetativas, a previsibilidade, a consistência e a ausência de arbitrariedade. E quando começamos a tratar estes procedimentos como meros instrumentos de gestão, surge um problema de legitimidade e de enfraquecimento do processo deliberativo europeu. Em suma, o que espero dos próximos pacotes a apresentar no contexto do Parlamento Europeu é que tenham em devida conta garantir que todo o processo decisório está em linha com o que está estabelecido nos tratados, desenvolvido pelos tribunais, que seja transparente e baseado em evidência.