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8.º Congresso - 23 de setembro de 2026 (dia 2)
23 September 2026
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A animada e inusitada interação entre a bastonária Paula Franco e o «Afonso», o robô humanoide, para além da intervenção do ministro adjunto e da reforma do Estado, Gonçalo Matias, dominaram a manhã de trabalhos.


«Simplificar com inteligência e qualidade»
Intervenção da bastonária, Paula Franco, na sessão de abertura

A abertura do segundo dia do 8.º Congresso começou de forma inusitada. «Afonso» tomou-lhe o gosto, e voltou a subir ao palco, depois de o ter feito na véspera, antes do jantar de gala, desta vez na companhia da bastonária que entabulou com o robô humanoide um animado diálogo. «Será que o “Afonso nos vai substituir?», foi a questão lançada por Paula Franco e que dinamizou esta intervenção durante cerca de 30 minutos. «Dependerá de nós. Usaremos a tecnologia para fazer melhorar, melhorar os tempos de trabalho e transformar a nossa profissão, utilizando melhor todos os dados. Em suma, andamos de mão dada com a tecnologia, mas não podemos deixar que ela nos controle», respondeu a bastonária.

O reposicionamento do profissional

 «Assumir a responsabilidade pelas decisões humanas é algo que não consigo fazer», admitiu o robô, trajado com a gravata oficial usada pelo staff. «As máquinas têm limites. O juízo profissional, o valor da confiança e a interpretação dos dados obtidos pelas máquinas é algo que só os profissionais conseguem fazer e o que os torna os verdadeiros representantes do futuro», sustentou a máxima responsável da OCC. Desenvolvendo o conceito do «contabilista 3.0», que dá o mote a este congresso, a bastonária salientou que este modelo «permite trazer a tecnologia para as nossas vidas, mas nunca abdicando do juízo profissional e da assunção de responsabilidades.» Reposicionar o contabilista certificado e colocá-lo ao serviço da contabilidade é um objetivo que, segundo Paula Franco, possibilitará «prestar contas até março», até porque, adiantou, «informação atempada é informação útil, mas se não for atempada, deixa de ser útil.» Para concluir, a bastonária mostrou-se esperançada que o princípio do “só uma vez”, expresso na proposta de aprovação legislativa do governo que se encontra já na Assembleia da República, será um «sonho tornado realidade. «Simplificar com inteligência e qualidade» e a centralização dos dados como caminho para poupar horas e horas de trabalho para os profissionais», foram outras traves mestras elencadas pela bastonária.

 

Um «exército empenhado» na “guerra” contra a burocracia
Gonçalo Matias, ministro adjunto e da reforma do Estado, elogiou os contabilistas certificados

«A carteira digital da empresa – um novo motor para a economia» era o mote pré-anunciado da intervenção do ministro adjunto e da reforma do Estado, mas diga-se, em abono da verdade, a sua intervenção foi muito para além dessa temática. Gonçalo Matias começou por endereçar palavras de felicitação à bastonária «pela preocupação manifestada no interesse da profissão, sem esquecer o interesse público e o bem comum.» Seguidamente, o governante centrou a sua intervenção nos objetivos da reforma do Estado: Simplificar a vida dos cidadãos e das empresas, colocando ambos no centro da ação do Estado.» Como pilares da reforma do Estado, Gonçalo Matias identificou a simplificação de procedimentos, das leis e a forma como o Estado se relaciona com as pessoas e as empresas. Só após ser feita a «reengenharia dos processos» é que se entrará na etapa seguinte, a digitalização. Confiança e responsabilidade são, para o ministro, «valores que têm de caminhar lado a lado». E explicou, de forma detalhada: «Sem confiança nenhum Estado se constrói. E é preciso que se diga que durante anos não confiámos e desconfiámos uns dos outros.» 

Interoperabilidade, «uma das maiores revoluções em décadas»

Na definida pelo governo como a «guerra contra a burocracia», Gonçalo Matias referiu contar com o apoio de um «exército empenhado» composto pelos profissionais da contabilidade e da fiscalidade. Socorrendo-se de estimativas avançadas pela União Europeia, o ministro revelou que se cifram em cerca de 30 mil milhões de euros os custos de contexto, perda de recursos e potencial de crescimento económico para as empresas provocados pela burocracia. Não abandonando a temática do «choque de simplificação legislativa» que o executivo está a levar a cabo, o governante referiu que «só num ano alterámos cinco códigos». A saber, o regime da construção, a nova lei do Tribunal de Contas, o novo código dos contratos públicos e a reforma da justiça administrativa e fiscal. A lei da interoperabilidade entrou no Parlamento há poucos dias e, a ser aprovada no hemiciclo, obrigará todas as entidades da administração pública a integrar todos os dados acessíveis, que passarão a circular entre as entidades. No final deste processo serão mais de cinco mil entidades abrangidas. «O princípio de “uma só vez” está previsto na lei há 12 anos, só que não é cumprido, sobretudo, por razões jurídicas e de vontade política e pelos silos construídos na administração pública e que inviabilizaram o diálogo. Esta será uma das maiores revoluções a que assistimos nas últimas décadas», afiançou.  Para concluir, uma informação em primeira mão: está em curso um processo de aprovação sobre a simplificação e modernização dos atos societários. «Portugal vai liderar este processo, da mesma forma que está a liderar a carteira digital das empresas. E estou em crer que este último projeto vai ser impulsionando em vários países da Europa dinamizado pelo nosso país.» Em meados de outubro, Gonçalo Matias viaja até Berlim para apresentar a Carteira Digital das Empresas “made in Portugal” ao seu congénere alemão.
 

 


«Profissionais que dominam a tecnologia, sem ser dominados por ela»
Intervenção de Aécio Dantas Júnior, presidente da UCALP

A sessão de abertura prosseguiu com a intervenção de Aécio Dantas Júnior. O brasileiro, que preside à União dos Contabilistas e Auditores de Língua Portuguesa (UCALP), também recorreu a uma pergunta para a abertura do seu discurso: «Em quem vamos confiar para interpretar o que os dados significam para a tomada de decisões responsáveis?». A resposta recaiu nos profissionais e as justificações foram céleres. «A Inteligência Artificial amplia capacidades e a automação redefine processos. Mas quanto maior for a capacidade tecnológica, mais importante será o discernimento humano. Precisamos de profissionais que dominem a tecnologia, sem ser dominados por ela», sustentou o “contador” que já presidiu ao Conselho Federal de Contabilidade (CFC) do Brasil e que lidera a UCALP desde 2025. «Os países de língua oficial portuguesa estão unidos pelo mesmo idioma, mas podemos e devemos estar ainda mais próximos através de um espírito de cooperação e aprendendo uns com os outros. A geografia separa estes profissionais, mas partilhamos muito dos desafios atuais», referiu. Para as organizações profissionais espalhadas pelo mundo, com especial enfoque para o universo lusófono, Dantas Júnior terminou declarando que «preparar e qualificar o contabilista certificado não é uma agenda da profissão, mas sim uma agenda de desenvolvimento.»


«A confiança e a reputação demoram muito tempo a construir, mas podem ser derrubadas num ápice»
Jean Buoquot, presidente da IFAC

Quase a terminar os dois anos de mandato na liderança da International Federation of Accountants (IFAC), Jean Bouquot começou por elogiar o trabalho desenvolvido pela OCC, que há quase 15 anos integra a maior organização contabilística mundial, em vários projetos, nomeadamente a abertura do acesso à profissão. «Continuem o vosso excelente trabalho em prol do interesse público», afirmou o francês que lidera esta instituição que se assume como a voz global da profissão, que representa 188 organizações contabilísticas profissionais em mais de 143 jurisdições. Jean Bouquot considerou que a sustentabilidade e a tecnologia são dimensões que vão definir o futuro da profissão e, uma vez mais, salientou as iniciativas promovidas pela OCC, ao nível do «contabilista 3.0», nomeadamente na forma como as empresas tomam decisões e no modo como está em transformação a forma como a sociedade nos perceciona.

Riscos que a IA pode amplificar

O presidente da IFAC identificou vantagens na adoção das novas tecnologias, nomeadamente a IA, «que permitirão que a profissão e os profissionais sejam mais analíticos, estratégicos e aprofundem o seu papel de conselheiros.» No reverso da medalha, identificou a falta de transparência e de privacidade como riscos que a IA pode «amplificar.»  A derradeira mensagem centrou-se em dois valores que andam de mãos dadas, confiança e reputação. »nunca deem nada por garantido, a confiança e a reputação demoram muito tempo a construir, mas podem ser derrubadas num ápice», alertou.

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