Entrevista
Entrevista a Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP
13 February 2026
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«O contabilista certificado é um elemento estruturante da sustentabilidade do negócio»


A proximidade entre os empresários do setor e os contabilistas certificados é «essencial para mitigar risco, assegurar transparência e apoiar decisões num contexto de margens curtas e elevada pressão operacional.» Para Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, a sustentabilidade económica e financeira continua a ser a principal preocupação diária para a maioria das empresas que representam. A responsável afirma ainda que «se houvesse um ambiente económico e fiscal favorável não estaríamos a discutir medidas paliativas para mitigar os problemas.»


Contabilista – O Orçamento do Estado (OE) para 2026 correspondeu ou defraudou as vossas expetativas?

Ana Jacinto –
Não correspondeu, de facto, às nossas expetativas. Apresentámos um conjunto de propostas, cerca de 30, que dividimos em quatro eixos: fiscalidade; capitalização das empresas; apoio ao investimento; qualificação e emprego. Na vertente fiscal, por exemplo, avançámos com propostas bastante relevantes para os setores que a AHRESP representa, sobretudo para as microempresas da restauração e do alojamento turístico.  A redução do peso da carga fiscal e contributiva era uma medida determinante. Infelizmente, e apesar de algumas propostas da nossa associação terem sido contempladas, a maioria ficou à margem do OE. Estou em crer que se esses nossos anseios tivessem sido plasmados no documento, não estaríamos hoje a reclamar apoios que os nossos setores tanto necessitam para mitigar os constrangimentos e que já levou o governo a avançar com medidas.


Precisamente, o governo anunciou em janeiro um plano de reestruturação das dívidas das empresas de restauração à banca através do Turismo de Portugal e a criação de linhas de apoio. Estes apoios, que tudo leva a crer serão regulamentados em fevereiro, permitem desanuviar a pressão na tesouraria ou são apenas um paliativo?

Se houvesse um ambiente económico e fiscal favorável não estaríamos a discutir medidas paliativas para mitigar os problemas. O OE 2026 devia ter contemplado as medidas essenciais para que as empresas façam o que lhes compete: criar postos de trabalho, gerar riqueza e redistribuí-la. A questão da redução da carga fiscal e contributiva sobre o rendimento do trabalho, bem como a questão do IVA são determinantes neste setor (designadamente a reposição da taxa intermédia nos refrigerantes e nas bebidas alcoólicas, que se manteve na taxa máxima). 
É preciso recordar que as empresas atravessaram, há não muito tempo, um período negro como foi a pandemia e ainda não se restabeleceram completamente dos danos causados, não tiveram tempo e condições para se recapitalizarem e muitas delas estão ainda a liquidar os empréstimos contraídos. Importa ainda sublinhar que muitas das ajudas do Estado foram empréstimos. Se a isto se juntar a inflação alimentar, os custos energéticos e o próprio peso dos salários, estamos a falar de custos operacionais muito elevados. Já para não falar da redução do poder de compra dos portugueses, que condiciona o número de vezes que se deslocam ao restaurante. Tudo somado, são fatores que tornam muito difícil o momento que o setor atravessa, que é esmagadoramente constituído por micro e pequenas empresas. É um problema transversal, mas que foi trazido à comunicação social pelos chefs, devido à sua visibilidade, alertando para as margens de rentabilidade cada vez mais reduzidas que os seus negócios vão tendo, fruto de todo este contexto adverso. Por isso, a AHRESP vai continuar a insistir neste ponto, até porque é uma questão da mais elementar justiça, no sentido de ter as bebidas alcoólicas e os refrigerantes com uma taxa uniformizada de 13 por cento. 

O IVA na restauração está nos 13 por cento mas algumas bebidas permanecem a  23 por cento. Recuar até à taxa mínima é uma reivindicação que tem caído em saco roto junto dos sucessivos governos. Encontra explicação? Isso seria a salvação do setor?

O objetivo de repor a taxa intermédia nas bebidas, que se encontra nos 23 por cento (taxa máxima), tem sido tão difícil de alcançar que, sinceramente, nos parece ainda mais complexo conseguir que o IVA na restauração recue, o que de facto é uma necessidade.  No mínimo, deveríamos não estar tão descompetitivos e distantes de alguns dos nossos principais concorrentes como é o caso de Espanha, França e Itália, que têm o IVA da restauração a 10 por cento. Nesse sentido, é de elementar justiça e urgência a reposição imediata da taxa de todos os produtos vendidos na restauração para a taxa intermédia, até para simplificar a vida dos empresários e dos consumidores, que têm de lidar com diferenciadas taxas.

É o caso, por exemplo, do vinho que no retalho tem IVA a 13 por cento, mas consumido no restaurante paga-se 23 por cento. É preciso terminar com estas discrepâncias?

Claro. E no caso do vinho vendido no restaurante ainda adicionamos serviço, contratando um sommelier ou um escanção, fornecendo um copo adequado. O restaurante é, também, um embaixador do vinho que vende porque recomenda harmonizações, explica de onde vem, adiciona tradições. Não é, por isso, compreensível que a taxa de IVA seja superior e diferenciada. É uma situação que gera perturbação ao empresário e confusão ao próprio consumidor. Por isso, a AHRESP vai continuar a insistir neste ponto, até porque é uma questão da mais elementar justiça, no sentido de ter as bebidas alcoólicas e os refrigerantes com uma taxa uniformizada de 13 por cento.

Existe a perceção de que a restauração é um negócio florescente, com aberturas constantes de novos espaços. Contudo, a AHRESP fala de «encerramentos silenciosos». O que é pretendem dizer com isso?

Apesar de monitorizarmos o setor, em todo o país, ninguém sabe o número de encerramentos de forma rigorosa. Temos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativamente às insolvências e falências registadas e também das aberturas. Mas há encerramentos silenciosos e não declarados, que é o caso que todos nós nos apercebemos quando caminhamos pelas ruas do nosso país e vemos, à porta do estabelecimento, um papel afixado informando que estão encerrados para férias e, no fim de contas, nunca mais abrem portas. Sabemos que são muitos casos, mas que ninguém sabe ao certo quantificar. 
 


Este é um setor que se debate com problemas de recrutamento de trabalhadores. Sem recurso a imigrantes os negócios corriam o risco de parar? 

A AHRESP representa tanto a restauração como o alojamento turístico, que inclui a hotelaria, o alojamento local, o turismo de ar livre, etc. Relativamente à sua pergunta, respondo afirmativamente. Estes setores não teriam condições operacionais sem o contributo dos trabalhadores imigrantes.  É uma preocupação grande. No entanto, concordamos que há que haver controle, organização e integração. Temos programas em curso no âmbito do apoio à integração de imigrantes e, recentemente, assinámos um protocolo com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para qualificar recursos humanos no país de origem e proceder, depois, à sua integração em Portugal.


Disse, em 2019, numa entrevista ao jornal «I», que «ser empregado de mesa tem de passar a ser uma profissão sexy como aconteceu com os chefs de cozinha». Quais são os motivos que afastam, nomeadamente, a geração portuguesa mais nova deste trabalho?

Desde que proferi essas afirmações verificaram-se algumas mudanças. A designação «empregado de mesa» mudou para «assistente de sala», exatamente para contribuir para a atratividade desta profissão. Nos nossos contratos coletivos passou, por isso, a figurar esta nova categoria profissional. As escolas de formação também já estão a adotar essa designação. Para além disso, tem sido feita uma aposta na valorização da própria retribuição salarial. Mas isso é suficiente? Claro que não, são pequenos passos. No entanto, é preciso perceber que um negócio da restauração não funciona apenas com chefs. O serviço de mesa, o saber receber, é essencial.  A verdade é que pode-se gostar muito de um restaurante por causa da qualidade da sua cozinha, mas, se o serviço de sala for mau, o cliente pode não voltar. 

Pelo contrário, os chefs de cozinha são hoje verdadeiras estrelas e a sua notoriedade atrai muitos clientes para os seus estabelecimentos…

O chef de cozinha conseguiu essa valorização, também muito à custa dos programas de televisão e do glamour associado. O trabalho de servir à mesa ainda não conseguiu atingir o mesmo patamar, mas estamos empenhados para que essa viragem aconteça. A associação tem uma iniciativa que são os prémios AHRESP onde premiamos o que melhor se faz nas nossas empresas, mas também temos categorias que se destinam a distinguir as nossas pessoas. Estou em crer que, na edição deste ano, teremos algumas surpresas relativas à visibilidade do serviço de sala dos estabelecimentos. Veremos.

As empresas, de maior ou menor dimensão, estão confrontadas com o desafio de cumprimento dos critérios environmental, social e governance (ESG). Sendo a maior parte destas empresas micro e pequenas, admite que a sustentabilidade económica e financeira e, em muitos casos, a própria sobrevivência financeira é o que domina, no dia a dia, as preocupações dos empresários?

Sim, a sustentabilidade económica e financeira continua a ser a principal preocupação diária da maioria das empresas que representamos, e isso é particularmente evidente no universo das micro e pequenas empresas, que constituem a maioria dos negócios que representamos. Estamos a falar de empresas com estruturas muito reduzidas, muitas vezes familiares, em que os próprios proprietários acumulam funções de gestão, operação e administração. O desafio é que o cumprimento dos critérios ESG exige capacidade de investimento, planeamento e tempo de gestão, recursos que estas empresas têm de forma muito limitada. Cria-se, assim, um paradoxo: para aceder a financiamento e instrumentos de apoio, já é exigido um determinado nível de maturidade em sustentabilidade, mas para alcançar esse nível as empresas necessitam precisamente de apoio técnico e financeiro. A sustentabilidade não pode ser apenas uma condição de acesso, tem de ser também um percurso acompanhado. É por isso que defendemos que a transição ESG tem de ser gradual, proporcional à dimensão das empresas e apoiada por mecanismos específicos de capacitação e financiamento. Caso contrário, corre-se o risco de transformar um objetivo estratégico – tornar o setor mais sustentável – numa barreira adicional para negócios que já operam com margens muito curtas e elevada pressão de custos.

O âmbito das boas práticas abrange um largo espetro que vai muito para além da higiene e da segurança alimentar.  Como estamos, por exemplo, em matéria de combate ao desperdício alimentar?

Como refere, o universo das boas práticas é hoje muito mais abrangente do que a higiene e a segurança alimentar. Inclui gestão eficiente de recursos, organização operacional, valorização das equipas e, de forma muito clara, o combate ao desperdício alimentar, que deixou de ser apenas uma questão ambiental para se afirmar como um fator crítico de gestão. Na Academia AHRESP, este é um dos temas centrais da formação que desenvolvemos junto dos empresários, que têm cada vez mais consciência que reduzir desperdício é também proteger a rentabilidade. Num contexto em que as matérias-primas representam um dos maiores custos operacionais e as margens são muito curtas, cada falha na gestão de stocks, porções ou conservação traduz-se em perda direta. Hoje, combater o desperdício é simultaneamente uma boa prática ambiental e uma decisão económica.

Este é um setor muito particular que tem de suportar elevados custos de contexto, nomeadamente para o cumprimento das obrigações fiscais e tributárias e a própria burocracia. Qual é a importância da proximidade dos contabilistas certificados com os empresários deste setor, nomeadamente na descodificação de nova legislação e apoios do Estado?

Estamos perante um tecido empresarial maioritariamente composto por micro e pequenas empresas, muitas vezes com estruturas de gestão muito reduzidas. Isso faz com que o contabilista certificado assuma um papel que vai muito além do cumprimento formal das obrigações fiscais: é um verdadeiro parceiro de gestão. Em setores com forte carga regulatória, alterações legislativas frequentes e acesso a instrumentos de apoio que exigem rigor técnico, o contabilista é quem traduz a complexidade da lei para a realidade do negócio. Apoia na interpretação de novas medidas, na elegibilidade a apoios públicos, no cumprimento das obrigações fiscais e contributivas, no controlo financeiro, na gestão de custos e, muitas vezes, também em matérias laborais e de recursos humanos. Esta proximidade é essencial para mitigar risco, assegurar transparência e apoiar decisões num contexto de margens curtas e elevada pressão operacional. A pandemia tornou isso particularmente evidente: a articulação entre empresários, contabilistas e a AHRESP foi decisiva para que muitas empresas conseguissem aceder a apoios e manter a atividade. Nestes setores, o contabilista é um elemento estruturante da sustentabilidade do negócio.

Ou seja, está confiante que mesmo com o alastrar da sofisticação tecnológica a todas as partes da sociedade, os contabilistas e os empresários do setor vão permanecer muito próximos?

Vamos fazer o nosso congresso no próximo mês de outubro, nos dias 22 e 23, em Lagoa, no Algarve, e contamos com a parceria da Ordem, como tem sido habitual. O foco estará precisamente no conhecimento e na inteligência artificial (IA) e fica desde já prometido que vamos ter temas e painéis do maior interesse para os contabilistas. Aliás, e a propósito desta nova era, permita-me que diga que não haverá IA que afaste os empresários dos setores que a AHRESP representa dos contabilistas certificados. Esta parceria está para durar. Os contabilistas certificados são um aliado para a vida. Temos apenas de nos adaptar, evoluir e aprender a viver novos tempos.

Cumpre 26 anos de ligação à AHRESP. Entrou como jurista, foi secretária-geral adjunta e hoje é secretária-geral e porta-voz nas intervenções públicas da associação. Que balanço faz deste percurso nesta casa?

É uma pergunta difícil. Tem sido um percurso gratificante, sempre com muitos desafios, tendo o maior sido, inegavelmente, a pandemia. Apesar das dificuldades, a AHRESP representa setores que têm demonstrado grande dinâmica e resiliência, com capacidade de regeneração. Pessoal e profissionalmente tem sido uma aprendizagem constante, que me tem permitido crescer. Quando integrei a AHRESP existiam apenas quatro delegações e uma equipa reduzida; atualmente, a estrutura conta com uma equipa de cerca de 55 profissionais, 16 delegações regionais e 9 polos de atendimento, cobrindo todo o território nacional. O balanço não podia ser mais positivo, mas estou convicta que há ainda muito para progredir. Acho que ainda estou a meio do percurso. 


Entrevista Nuno Dias da Silva | Fotos Bruno Colaço 


Entrevista publicada na Revista Contabilista n.º 309 janeiro 2026

PERFIL

Ana Jacinto é licenciada em Direito pela Universidade Autónoma de Lisboa e possui um MBA pela Universidade Lusófona. Exerce atualmente o cargo de secretária-geral da AHRESP, na defesa de setores estruturantes da economia nacional: o alojamento turístico e a restauração e similares. Com um percurso de 26 anos na AHRESP, iniciou funções como jurista, assumiu posteriormente o cargo de secretária-geral adjunta e é hoje a responsável máxima executiva da associação.
 

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