O passado, o presente e o futuro da justiça tributária. Três ângulos observados a partir dos tribunais, da arbitragem, da administração tributária e da academia. Foi esta a aliciante proposta da conferência «Pensar a Justiça Tributária», organizada pela Ordem, durante a tarde de 21 de maio, no Auditório António Domingues de Azevedo, em Lisboa.
A anfitriã, Paula Franco, foi a primeira a intervir, referindo que «a litigância fiscal acaba por atrasar os processos e a evolução do país, sendo os próprios contabilistas certificados cada vez mais visados nos processos entre a AT e o contribuinte, colocando-nos em causa, muitas vezes de forma injusta.» A bastonária acrescentou ainda que «a celeridade da justiça é um direito de qualquer cidadão.»
Por seu turno, Clotilde Celorico Palma, professora do ISCAL e a principal impulsionadora deste evento, declarou ser imperioso «tornar melhor o nosso sistema fiscal, em particular no modo em que a justiça é aplicada.»
Em busca de uma visão multidisciplinar
Paulo Marques moderou o primeiro painel, em que lançou um olhar sobre o passado da justiça tributária. O professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) defendeu que «a melhoria qualitativa da justiça tributária» deve ser acompanhada, em paralelo, por um aprofundamento da cidadania fiscal na relação entre o Estado e os contribuintes.
Jorge Lopes de Sousa identificou o ano de 2012 como o início do «descalabro» nos tribunais tributários. O ex-presidente do Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga recordou que a entrada massiva de processos nos tribunais de primeira instância (casos de portagens, taxas moderadoras de hospitais, falta de título de transporte público, taxas de estacionamento camarárias, propinas dos estabelecimentos de ensino superior, quotas das associações profissionais, etc.) entupiram os tribunais. Como solução, advogou introduzir a arbitragem neste tipo de litígios de pequeno valor ou «atos de consumo».
Susana Soutelinho congratulou-se com o facto de os «contribuintes serem hoje cada vez mais proativos», mas «ainda são muitos os que têm uma postura reativa, o que nos deve preocupar.» A advogada e docente no ISCAL fez ainda questão de sublinhar que a publicidade das decisões dos tribunais é hoje muito melhor, «em nome da transparência.»
Anabela Santos trouxe até ao auditório António Domingues de Azevedo algumas reflexões económicas e políticas sobre o funcionamento da justiça tributária. A consultora da Ordem argumentou que «a contabilidade não tem sido tida em consideração na apreciação do mérito na aplicação do princípio da justiça pelos nossos tribunais. Contudo, o problema tem origem na AT.» Para a habitual interveniente das reuniões livres das quartas-feiras, «a especialização não é a única chave», tendo defendido a adoção de uma «visão multidisciplinar para a justiça tributária», em que seja privilegiada a decisão de mérito por parte dos juízes.